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Erros que pais de atletas cometem e que podem comprometer a carreira esportiva

Erros que pais de atletas cometem

No esporte de formação, o papel da família é decisivo. A forma como os pais se comportam, incentivam, cobram ou projetam expectativas influencia diretamente o desenvolvimento esportivo, emocional e social da criança.

No contato com famílias de atletas, é muito comum ouvir frases como: “meu filho será campeão olímpico”, “ele é o novo fenômeno da natação” ou “preciso de patrocínio para meu filho de 8 anos”.

O padrão é sempre o mesmo: ansiedade, idealização e desconhecimento sobre o tempo do esporte.

Antes de apontar os erros mais comuns, é importante entender por que os pais exercem tanto impacto na carreira esportiva dos filhos.

Porque os pais determinam o ambiente em que o esporte acontece. São eles que influenciam:

  • A percepção da criança sobre o esporte (diversão, obrigação ou competição)
  • A permanência na modalidade (continuidade ou abandono)
  • A relação com vitórias e derrotas
  • A confiança nos treinadores
  • A saúde emocional
  • A organização de rotina (estudos, descanso, treinos)

Crianças e adolescentes abandonam o esporte muito mais por excesso de expectativas, pressão, estresse competitivo, falta de prazer e comparações, do que por falta de talento. Por isso, quando o comportamento familiar sai do eixo, mesmo um jovem extremamente habilidoso pode desistir cedo.

Ter talento não significa estar pronto para regimes de treino de alto rendimento, especializações rígidas ou cobranças profissionais.

A profissionalização precoce costuma gerar:

  • Perda de interesse pelo esporte
  • Lesões por sobrecarga
  • Estresse emocional
  • Quebra da diversidade motora
  • Abandono da modalidade

O correto é permitir que a criança vivencie o esporte de forma progressiva, compatível com seu estágio fisiológico, motor, psicológico e social.

Quando o foco dos pais é o pódio da categoria de base, o processo é interrompido.

A lógica do desenvolvimento esportivo é de longo prazo e não é linear: envolve fases de maturação, aprendizado técnico, mudança corporal e adaptação emocional.

O atleta que leva vantagem aos 10 ou 12 anos não necessariamente será competitivo aos 18. Em muitos casos, é justamente o oposto.

Um erro frequente é o pai ou a mãe assumir uma espécie de “copatrocínio técnico” da carreira, dando instruções, corrigindo técnica, contestando metodologias e tentando conduzir treinos.

Essa interferência:

  • Confunde a criança
  • Prejudica o planejamento do treinador
  • Quebra a autoridade da equipe técnica
  • Gera atrito e insegurança

Existem casos ainda mais graves, quando os pais buscam “treinadores paralelos” ou “auxílio técnico extra” sem comunicação com o clube. Essa prática desestrutura o processo, atrapalha a evolução e pode causar retrabalho no ensino motor.

Comparar desempenhos, medalhas, tempos, corpos ou evolução é extremamente nocivo. Cada atleta tem um ritmo próprio, determinado por fatores genéticos, hormonais, emocionais e sociais.

Comparações geram insegurança, raiva, desmotivação e sentimento de incompetência.

O único parâmetro saudável é o do próprio atleta consigo mesmo.

Pais que enxergam o filho como “mini atleta profissional” esquecem que, antes disso, ele é uma criança.

Ignorar emoções como medo, vergonha, ansiedade, frustração ou cansaço cria adultos inseguros e atletas mentalmente frágeis.

Saúde mental não é luxo: é requisito para permanecer no esporte.

Outro erro comum é usar o esporte do filho para validar sonhos, status ou frustrações próprias.

Quando o atleta se sente responsável por realizar o sonho de outro, o esporte deixa de ser prazer e passa a ser dever.

Nesse cenário, a pressão aumenta e a autonomia desaparece.

Pais que precisam “confirmar talento” o tempo todo, mostrando medalhas, buscando patrocínios ou rotulando o filho como “fenômeno”, quase sempre estão na direção errada.

Patrocínio, visibilidade e resultados são consequência de um processo, não seu início.

Guilherme Caribé e seu pai Mateus - Foto: arquivo pessoal atleta
Guilherme Caribé e seu pai Mateus – Foto: arquivo pessoal atleta

Apoio é presença, logística, incentivo e acompanhamento.

Controle é interferência técnica, cobrança e microgerenciamento.

Quando o adulto apoia, o atleta cresce. Quando o adulto controla, o atleta encolhe.

O esporte exige orientação especializada.

Pediatria esportiva, preparação física, psicologia do esporte, nutrição e pedagogia do movimento existem para orientar o processo.

Pais bem informados evitam erros que atrasam anos de desenvolvimento.

Atletas jovens precisam equilibrar:

  • Sono
  • Escola
  • Treino
  • Alimentação
  • Lazer
  • Convívio social

Sem isso, não existe desenvolvimento saudável, seja esportivo ou pessoal.

O esporte não é um atalho para fama, dinheiro ou status.

É um ambiente de construção de caráter, disciplina, resiliência, espírito coletivo e autonomia.

Mesmo quem não se torna atleta profissional leva esses valores para a vida.

O atleta precisa aprender a perder, ganhar, esperar, competir e conviver, mas nunca sozinho.

O amparo emocional é tão importante quanto treino técnico.

O tempo do esporte não é o do adulto.

A pressa destrói o processo.

Quem acelera fases demais forma campeões de base que desaparecem no adulto.

Quem forma atletas é o tempo, o processo, o treino, a maturação, o ambiente e as equipes técnicas.

Cabe à família criar um cenário onde a criança queira permanecer, aprender e evoluir.

O esporte precisa ser divertido, saudável e formativo. Quando isso acontece, o atleta não só fica mais tempo na modalidade, como também se desenvolve como pessoa, independente de medalhas ou resultados.

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André Pereira

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Clube atual: Universidade Santa Cecília – Santos/SP

Títulos e conquistas:

  • Atleta Olímpico – Jogos Olímpicos de 2016 – Rio de Janeiro/Brasil

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