
Nos últimos anos, consolidou-se na natação brasileira uma cultura que tem gerado distorções importantes no desenvolvimento de atletas e da própria modalidade.
Trata-se da antecipação de reconhecimento, principalmente por meio de alta remuneração, para atletas que ainda estão em fase de formação ou em processo de consolidação no alto rendimento. Na prática, criou-se a cultura do “TER ANTES DE SER”.
O problema não está em investir em atletas jovens. Esse investimento é necessário. A questão central é a forma como isso vem sendo feito, muitas vezes de maneira desenfreada, invertendo a lógica natural do processo e priorizando pontos em campeonatos nacionais, em vez de considerar a performance do atleta em relação ao ranking mundial.
Quando a entrega de performance em relação ao ranking mundial passa a valer menos do que resultados nacionais, o impacto não se limita a casos isolados. Ele atinge diretamente o desenvolvimento do atleta e compromete o crescimento sustentável da modalidade.
A inversão da lógica no desenvolvimento do atleta
A antecipação de reconhecimento costuma colocar o atleta em um patamar de cobrança e exposição incompatível com o estágio em que se encontra. Em muitos casos, essa cobrança surge sem o acompanhamento necessário para que ele alcance o amadurecimento técnico, físico, emocional e pessoal esperado para o alto rendimento.
O processo de formação, que deveria respeitar etapas claras e progressivas, acaba sendo atropelado por expectativas imediatas. O atleta passa a ser tratado como uma realidade consolidada quando, na prática, ainda está em construção e caminhando em busca de resultados realmente expressivos.
Pontos em campeonatos nacionais ganham mais peso que o ranking mundial
Outro efeito direto dessa lógica distorcida é a mudança dos critérios de avaliação. Em vez de se olhar para a performance em relação ao cenário internacional, passa-se a valorizar excessivamente pontuação em campeonatos nacionais.
Esse deslocamento de referência cria uma falsa percepção de nível.
Resultados internos passam a ser tratados como indicadores de excelência, mesmo quando não têm correspondência com o nível exigido no calendário mundial. Com isso, decisões importantes são tomadas com base em parâmetros que não refletem a realidade do alto rendimento e nivelam por baixo a natação brasileira.
Impactos no ambiente da modalidade
A consequência não se restringe ao atleta individualmente. O ambiente da modalidade como um todo se desorganiza e se desconecta do cenário internacional.
As referências salariais deixam de ser técnicas e passam a ser definidas por projeções e pontuações em campeonatos nacionais, deixando de ser pelo o que a performance do atleta realmente representa na natação mundial.
Projetos que trabalham com planejamento, critérios claros e metas bem definidas perdem espaço para projetos que se baseiam em apostas de curto prazo em “promessas” criadas a partir de critérios que levam em consideração exclusivamente o nível atual da natação nacional.
Esse modelo enfraquece iniciativas estruturadas e dificulta a construção de um ecossistema mais sólido e alinhado com o alto rendimento mundial.
Talento é ponto de partida, não linha de chegada
Nesse contexto, perde-se de vista um princípio básico do alto rendimento: talento é ponto de partida, não linha de chegada.
Para que um atleta se torne referência mundial, os resultados precisam ser entregues ao longo do tempo em grandes competições do calendário internacional, nas quais ele estará sob pressão real e com necessidade de continuidade de performance em diferentes momentos das provas que nadará, enquanto que, para se tornar referência no Brasil, só é necessário vencer uma grande quantidade de provas ou estabelecer novos recordes nacionais sem a necessidade de que seus tempos representem uma boa colocação no ranking mundial.
Diante disso, surge uma pergunta inevitável: como atletas que recebem altos valores por resultados sem expressão no cenário mundial conseguirão estabelecer metas realmente ambiciosas?
O reflexo no cenário mais amplo da natação brasileira
A consequência desse modelo aparece de forma clara quando se observa o panorama mais amplo.
Quantas “promessas” se transformaram, de fato, em realidades nas últimas décadas?
Quantos nadadores brasileiros estariam classificados hoje para os Jogos Olímpicos de 2028?
Quantos nadadores brasileiros estiveram no TOP 10 do ranking mundial de piscina longa nos últimos 05 anos?
Não é razoável normalizar a condição de país que “moe” talentos, em vez de ser o país que desenvolve e mantém seus atletas ao longo do tempo. Tampouco é saudável depender, a cada ciclo olímpico, de um número reduzido de atletas, sobre os quais se concentram todas as expectativas.
Conclusão
A formação de um verdadeiro atleta de alto rendimento não comporta atalhos. Ela exige planejamento, ambiente adequado, volume de competição qualificada e, principalmente, resultados internacionais expressivos.
Enquanto o reconhecimento continuar sendo antecipado e os critérios permanecerem desalinhados da realidade mundial, a natação brasileira seguirá enfrentando as mesmas frustrações, ciclo após ciclo.

Coordenador de Projetos da RSP Sports, com mais de 17 anos de experiência na áreas de gestão e assessoria esportiva.


