
Existe um equívoco que ainda persiste em muitas entidades esportivas brasileiras: a ideia de que gerir bem é, acima de tudo, uma questão de paixão pelo esporte e de boas intenções.
Paixão e boas intenções são importantes, mas não substituem conhecimento.
No esporte, o desconhecimento das legislações que regem as relações entre entidades, atletas, profissionais, patrocinadores, parceiros e órgãos competentes tem um custo alto que se manifesta de formas nem sempre previsíveis.
O QUE UM GESTOR ESPORTIVO PRECISA SABER SOBRE LEGISLAÇÕES
A gestão esportiva opera dentro de um conjunto amplo de legislações que abrangem relações contratuais, trabalhistas, fiscais, tributárias e as normas específicas do setor esportivo.
Não se trata de exigir que todo gestor seja advogado ou contador. Trata-se de exigir que quem lidera conheça o suficiente para tomar decisões embasadas, reconhecer riscos e buscar orientação especializada antes de agir, não depois que o problema já está instalado.
OS RISCOS DO DESCONHECIMENTO
Gerir sem conhecimento das legislações aplicáveis é assumir riscos que poderiam ser evitados.
Entre os mais comuns estão:
- Contratos mal estruturados que criam vínculos indesejados, limitam direitos ou geram obrigações que nenhuma das partes previa.
- Transferências de atletas realizadas fora das normas estabelecidas pelas legislações e regulamentos aplicáveis.
- Relações profissionais enquadradas de forma equivocada, gerando passivos trabalhistas e fiscais que se acumulam silenciosamente.
- Captação e uso de recursos via instrumentos de financiamento sem observar as regras específicas de cada modalidade.
- Obrigações legais ignoradas ou cumpridas fora do prazo, expondo a entidade e quem dela depende a riscos que poderiam ter sido evitados.
- Relações com atletas menores de idade conduzidas sem os devidos respaldos legais e contratuais.
- Acordos verbais ou informais que, sem documentação adequada, deixam todas as partes desprotegidas quando surgem divergências.
- Descumprimento de normas de certificação, registro e compliance junto aos órgãos competentes.
OS PROBLEMAS QUE O DESCONHECIMENTO GERA
Quando esses riscos se concretizam, os problemas raramente ficam restritos ao erro que os originou.
Internamente, a instabilidade compromete o ambiente. Atletas e profissionais precisam de segurança para render e quando as decisões que afetam suas carreiras não têm respaldo técnico adequado, o foco se desloca do desempenho para a gestão de incertezas que não deveriam existir.
Externamente, a credibilidade da entidade é afetada. Patrocinadores, parceiros e órgãos competentes avaliam constantemente o nível de profissionalismo de quem lidera. Uma gestão que não sustenta suas decisões com clareza técnica transmite uma mensagem que vai muito além do problema imediato.
Resgatar credibilidade perdida é sempre mais difícil e mais demorado do que a construir corretamente desde o início.
CONHECIMENTO QUE NÃO SE APLICA NÃO SERVE
Conhecer legislações não é suficiente se esse conhecimento não for aplicado corretamente.
Citar leis sem entender o que elas determinam ou sem verificar se elas se aplicam à situação concreta cria uma falsa sensação de segurança que pode ser mais perigosa do que o desconhecimento total, porque leva a decisões tomadas com convicção equivocada.
Conhecer uma lei significa entender o que ela diz, para quem ela foi criada e em quais situações ela se aplica. Sem esse entendimento, qualquer fundamentação é frágil e qualquer decisão baseada nela também.
QUANDO O PROBLEMA JÁ ESTÁ INSTALADO
Erros acontecem. O que define uma gestão séria não é a ausência de erros, mas a forma como ela os trata quando aparecem.
Identificar o problema com clareza, buscar orientação especializada e agir para minimizar os impactos sobre todos os envolvidos é o caminho correto.
Tentar sustentar uma decisão equivocada ou transferir responsabilidades apenas agrava a situação e compromete ainda mais a credibilidade da entidade.
Quanto mais cedo o erro é reconhecido e tratado, menor o custo para todos.
CONCLUSÃO
Conhecer as legislações que regem a gestão esportiva não é diferencial. É obrigação de quem ocupa uma posição de liderança numa entidade que lida com carreiras, recursos e pessoas.
O gestor que age sem esse conhecimento pode até ter as melhores intenções. Mas boas intenções sem embasamento não evitam riscos, não protegem o ambiente e não constroem instituições sólidas.
No fim, o que separa uma gestão que evolui de uma que se repete nos mesmos erros é exatamente isso: a disposição de conhecer as regras antes de tomar decisões que dependem delas.

Coordenador de Projetos da RSP Sports, com mais de 17 anos de experiência na áreas de gestão e assessoria esportiva.


