
A dor no ombro é uma das queixas mais comuns entre nadadores. Ela pode aparecer de forma leve após os treinos, evoluir para dor durante a braçada e, em alguns casos, limitar o rendimento e afastar o atleta da piscina.
Esse quadro é frequentemente chamado de “ombro do nadador”, mas não representa apenas uma lesão específica. Pode envolver tendinopatia do manguito rotador, impacto subacromial, alterações da escápula, instabilidade, sobrecarga muscular, dor no bíceps e até lesões labrais, variando bastante a complexidade do tratamento.
Vamos entender a dor no ombro na natação?
Durante a natação, o ombro realiza milhares de movimentos repetidos acima da cabeça. Esse volume, somado à fadiga, falhas técnicas e déficits de força ou mobilidade, pode aumentar a sobrecarga sobre o manguito rotador e os estabilizadores da escápula.
Revisões sistemáticas apontam que fatores como aumento brusco de carga, redução da resistência de força posterior do ombro, alterações de amplitude de movimento, frouxidão articular e discinesia escapular podem estar associados à dor em nadadores.
Muita coisa, né? Mas vamos continuar…
Principais causas de dor no ombro na natação
As causas mais comuns costumam ser multifatoriais.
1. Sobrecarga por volume de treino
O aumento rápido do volume semanal, intensidade ou quantidade de metros nadados pode ultrapassar a capacidade de adaptação dos tecidos.
Estudos em nadadores competitivos sugerem relação entre carga de treino, razão carga aguda/crônica e dor no ombro.
2. Tendinopatia do manguito rotador
O manguito rotador é essencial para centralizar a cabeça do úmero durante a braçada.
Quando há fadiga, fraqueza ou excesso de carga, pode ocorrer irritação tendínea, especialmente nos músculos supraespinal e infraespinal.
3. Discinesia escapular
A escápula precisa se mover de forma coordenada com o braço.
Quando esse ritmo está alterado, o ombro perde eficiência mecânica.
A literatura descreve associação entre alterações escapulares, dor e disfunção no ombro.
4. Erros técnicos da braçada
Alguns erros técnicos podem aumentar significativamente o estresse no ombro:
- Entrada da mão muito cruzada;
- Recuperação inadequada;
- Rotação corporal insuficiente;
- Excesso de força no início da puxada.
5. Falta de mobilidade torácica e flexibilidade
Rigidez torácica, encurtamento do peitoral, déficit de rotação interna ou excesso de mobilidade sem controle podem modificar a posição do ombro durante o nado.
6. Fraqueza dos rotadores externos e estabilizadores da escápula
A redução da resistência da musculatura posterior do ombro aparece como possível fator associado à dor e lesão em nadadores competitivos.

Quais estilos mais sobrecarregam o ombro?
O nado crawl e o borboleta tendem a gerar maior demanda repetitiva sobre o complexo do ombro, principalmente pelo alto número de ciclos de braçada acima da cabeça.
Porém, qualquer estilo pode gerar dor quando existe desequilíbrio entre:
- Carga de treino;
- Técnica;
- Força muscular;
- Mobilidade;
- Recuperação.
Sintomas de alerta que o nadador não deve ignorar
O nadador deve procurar avaliação profissional quando apresentar:
- Dor durante a braçada;
- Dor após os treinos que não melhora em 24 a 48 horas;
- Perda de força;
- Sensação de instabilidade;
- Limitação de mobilidade;
- Dor noturna;
- Piora progressiva dos sintomas;
- Alteração da técnica para conseguir nadar.
Como prevenir dor no ombro na natação
A prevenção deve combinar:
- Controle de carga;
- Fortalecimento;
- Mobilidade;
- Correção técnica;
- Recuperação adequada.
O fortalecimento deve priorizar:
- Manguito rotador;
- Serrátil anterior;
- Trapézio médio;
- Trapézio inferior;
- Romboides;
- Cadeia posterior do ombro;
- Core.
Além disso, guidelines recentes sobre tendinopatia do manguito rotador recomendam reabilitação ativa com exercícios, controle motor e treinamento resistido como base do tratamento conservador.
A terapia manual pode ser utilizada como complemento, principalmente para melhora da dor e mobilidade no curto prazo.
Exercícios úteis para prevenção
Alguns exemplos incluem:
- Rotação externa com elástico;
- Rotação interna controlada;
- Remada baixa;
- Elevação em “Y”;
- Elevação em “T”;
- Wall Slide com ativação de serrátil;
- Push-Up Plus;
- Prancha com toque no ombro;
- Mobilidade torácica em rotação;
- Alongamento de peitoral;
- Controle escapular na parede;
- Exercícios proprioceptivos com bola.

Importante
A escolha dos exercícios deve ser individualizada.
Não existe um protocolo único que funcione para todos os nadadores.
Os exercícios devem ser definidos de acordo com:
- Nível de dor;
- Déficit de força;
- Mobilidade;
- Gesto esportivo;
- Fase da temporada.
Quando procurar avaliação profissional?
A avaliação é indicada quando a dor:
- Persiste por vários dias;
- Aparece durante os treinos;
- Piora progressivamente;
- Limita força ou mobilidade;
- Altera a técnica;
- Impede o atleta de manter o volume habitual de treinamento.
O fisioterapeuta esportivo pode avaliar:
- Amplitude de movimento;
- Força do manguito rotador;
- Resistência muscular;
- Ritmo escapular;
- Mobilidade torácica;
- Controle motor;
- Técnica de nado;
- Carga semanal de treino.
Como a análise biomecânica pode ajudar?
A análise biomecânica permite identificar:
- Erros na entrada da mão;
- Cruzamento excessivo da braçada;
- Assimetrias;
- Rotação corporal insuficiente;
- Compensações escapulares;
- Sinais de fadiga técnica.
Com isso, o plano de tratamento deixa de ser genérico e passa a ser direcionado para a causa real da sobrecarga.

Erros comuns que agravam a dor
Algumas atitudes podem prolongar ou agravar o problema:
- Continuar treinando mesmo com dor;
- Ignorar sinais de fadiga;
- Fortalecer sem corrigir a técnica;
- Focar apenas no manguito e esquecer escápula, tronco e carga;
- Retornar ao volume anterior sem progressão;
- Utilizar apenas repouso, gelo ou medicação sem corrigir os fatores mecânicos.
Conclusão
A dor no ombro na natação é comum, mas não deve ser normalizada.
Na maioria dos casos, ela surge por uma combinação de carga excessiva, déficit de força, alterações de mobilidade, falhas técnicas e controle inadequado da escápula.
O tratamento mais eficiente é individualizado, progressivo e baseado em evidências, integrando fisioterapia esportiva, análise técnica, fortalecimento e controle de carga.
Com avaliação adequada e intervenção precoce, é possível retornar aos treinos com mais segurança, reduzir o risco de recorrência e melhorar a eficiência da braçada.
No próximo artigo, vamos abordar os principais exercícios para prevenção e reabilitação da dor no ombro em nadadores.
Referências
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- Lech O, Piluski P, Bonadiman JA, Bordin F. Cicatrização do manguito rotador. 2026.

Fisioterapeuta, coordenador do Instituto Pierin e Fisioterapeuta Chefe da Equipe Multidisciplinar de Águas Abertas da Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos. Atua com foco em reabilitação, prevenção de lesões e desempenho esportivo.
Instagram: @fisioterapeutajorgeluis


