
Um relato sobre a busca por esclarecimentos, o papel do atleta na construção de um esporte mais transparente e a importância do diálogo entre atletas e instituições.
Representar o Brasil sempre foi uma das maiores honras da minha carreira. Cada convocação conquistada ao longo desses anos foi resultado de muito trabalho, dedicação e compromisso com a natação.
Por isso, quando meu nome não apareceu entre as atletas convocadas para os Jogos ODESUR 2026, senti a frustração natural de quem sonhava em defender novamente a Seleção Brasileira. Passado esse primeiro momento, entendi que a melhor forma de lidar com a situação seria buscar compreender como essa decisão havia sido tomada.
É justamente esse processo que gostaria de compartilhar. Trata-se do relato de uma busca por esclarecimentos conduzida de forma respeitosa, utilizando os canais institucionais disponíveis e baseada na convicção de que atletas devem participar ativamente das discussões que envolvem suas carreiras e o esporte que representam.
Antes de tudo, faço questão de deixar claro que tenho total respeito pelas atletas convocadas e pela comissão técnica. Meu posicionamento não tem qualquer intenção de desmerecer ninguém, mas sim de buscar esclarecimentos sobre o processo de composição da equipe.
Fui a única campeã individual do Troféu Maria Lenk 2026 que não foi convocada para a seleção, fato que me causou grande frustração. Entendo perfeitamente que parte das vagas foi preenchida por critérios objetivos previamente definidos e, em relação a essas, não há qualquer questionamento da minha parte.
Minha dúvida surgiu em relação às vagas remanescentes, destinadas à avaliação técnica da comissão. Diante do título conquistado nos 50m livre e do entendimento de que meu desempenho atual me coloca em condição real de disputar medalhas em nível sul-americano, considerei legítimo buscar compreender quais aspectos foram determinantes para a composição final da equipe. Inclusive, sou a atual campeã sul-americana dos Jogos ODESUR nessa prova. Por isso, também fiquei desapontada por não poder defender esse título.
Busquei inicialmente o apoio do meu treinador, do SESI-SP e da minha assessoria, que compartilharam do entendimento de que seria importante buscar esclarecimentos de forma institucional. Também procurei a Comissão de Atletas da CBDA, que prontamente me ouviu, apoiou minha iniciativa e manifestou seu apoio ao encaminhamento da carta que elaborei à Confederação.
Recebi um retorno institucional da CBDA, que reiterou os critérios publicados. No entanto, ele não respondeu aos questionamentos específicos que apresentei sobre a aplicação desses critérios na definição das vagas remanescentes.
Quando falamos de uma convocação para a Seleção Brasileira, não estamos falando apenas de uma competição. Estamos falando de anos de preparação e de decisões que impactam diretamente a carreira de um atleta. O ODESUR acontece só a cada quatro anos, faz parte do ciclo do Time Brasil para Los Angeles 2028 e também é importante para programas de apoio e bolsas esportivas. Por isso, entender como essas decisões são tomadas é tão importante.
Depois de tantos anos dedicados à natação, de tantas convocações para a Seleção Brasileira e de 12 títulos brasileiros conquistados, continuo tendo o mesmo orgulho e o mesmo desejo de representar o nosso país.
Decidi tornar esse processo público porque acredito que discussões sobre critérios, transparência e prestação de contas fortalecem o esporte. Não se trata apenas da minha convocação, mas de um princípio que beneficia todos os atletas e o futuro do nosso esporte.
Continuarei treinando e buscando resultados, como sempre fiz, com o objetivo de voltar a representar o Brasil. Da mesma forma, seguirei defendendo que critérios claros, transparência nas decisões e diálogo entre atletas e instituições são pilares fundamentais para o fortalecimento da natação brasileira. É nesse espírito, e com respeito a todos os envolvidos, que compartilho este relato.

Campeã sul-americana, medalhista pan-americana e 12x campeã brasileira na prova de 50 metros livre.


