
Por que falar sobre transição de carreira de atleta
Aos 32 anos, depois de uma vida inteira dentro da piscina, eu me vejo diante de uma frase que pode assustar: transição de carreira de atleta. Não é um tema confortável. Ninguém me ensinou, com a mesma intensidade dos treinos e competições, como seria o dia em que a próxima prova simplesmente não existiria mais.
A carreira de um atleta de alto rendimento é, em essência, uma corrida contra o tempo. Enquanto as pessoas no mercado de trabalho, aos 30 anos, estão amadurecendo e conquistando espaço nas empresas ou empreendendo, o atleta de alto rendimento já está se preparando, ou pelo menos deveria estar se preparando, para a aposentadoria. Isso é brutal.
Escrevo este texto não como um especialista que observa de fora, mas como alguém que está vivendo esse processo agora, e ele nem sempre é fácil. Quero organizar aqui os quatro pilares que considero importantes para uma transição saudável: o fator psicológico, os estudos, o sistema de clubes com contratos curtos, e a organização financeira. Cada um deles merece atenção, e quanto antes começarmos a pensar neles, melhor.
1. O fator psicológico: quem sou eu quando paro de competir?
Talvez o maior desafio da transição não seja “o que fazer agora?”, mas sim “quem ser agora?”. Para muitos de nós, a identidade se confunde com a carreira. Passamos tanto tempo sendo “o nadador”, “a judoca”, “o jogador”, que esquecemos de construir uma pessoa por trás do atleta.
Há quem compare a sensação ao fim da carreira com uma espécie de luto. E os números reforçam a gravidade: um levantamento citado pelo Comitê Olímpico Internacional e por associações internacionais de atletas aponta que esportistas aposentados apresentam índices elevados de ansiedade, depressão e crises de identidade nos primeiros anos após o encerramento da carreira competitiva. Entre os problemas mais relatados estão depressão, isolamento social, irritabilidade, baixa autoestima, dificuldade na tomada de decisões, problemas de sono e até abuso de substâncias. Talvez uma reação à mudança brutal de rotina, propósito e ambiente.
O que a literatura e a vivência mostram de mais encorajador é que a transição bem planejada muda esse cenário. Atletas que desenvolvem, ainda durante a carreira, interesses e atividades fora do esporte tendem a fazer transições mais tranquilas do que aqueles que se dedicam exclusivamente à modalidade. Da mesma forma, o apoio da família, dos amigos e o suporte institucional fazem diferença real no enfrentamento dessa fase.
O que tem me ajudado na prática:
- Procurar acompanhamento psicológico antes do fim da carreira, e não só depois que a crise ou a idade chega. Prevenir é melhor do que remediar.
- Começar a responder, enquanto atleta competitivo, à pergunta “o que me dá prazer além de competir?”.
- Entender que pedir ajuda não diminui ninguém. O estigma em torno da saúde mental no esporte é justamente o que faz muitos atletas demorarem tempo demais para buscar apoio.
Se você está lendo isto e se reconhece em algum desses sinais, vale conversar com um psicólogo do esporte. Cuidar da mente é tão treino quanto cuidar do corpo.

2. Estudos: a dupla carreira como proteção
Esse é um pilar que deveria ser obrigatório para qualquer atleta, mas que ainda precisa ser discutido. A literatura esportiva chama isso de dupla carreira (ou dual career): a conciliação entre a formação esportiva de alto rendimento e a formação acadêmica ou profissional.
Pesquisas brasileiras e internacionais são consistentes em um ponto: atletas que conseguem manter os estudos ao longo da carreira fazem transições mais fluidas para a vida pós-esporte. A experiência da dupla carreira tem repercussão positiva no desenvolvimento pessoal, social e profissional, e oferece algo valiosíssimo no momento da aposentadoria: alternativas.
O problema é que conciliar não é simples. A elevada dedicação de tempo ao esporte, entre treinos, viagens e competições, torna a jornada dupla um desafio real. Muitos atletas acabam migrando para o ensino noturno, atrasando a formação ou abandonando os estudos para priorizar o esporte. E é compreensível: quando o sonho do alto rendimento fala mais alto, a escola ou a faculdade costuma ficar em segundo plano.
Não precisa ser um diploma de quatro anos cursado no auge da temporada. Pode ser um curso técnico, uma graduação a distância, uma certificação profissional, um curso de gestão esportiva. O importante é não chegar ao fim da carreira sem nenhuma outra ferramenta na mochila. Muitos ex-atletas encontram caminho como treinadores, dirigentes, comentaristas, empreendedores ou profissionais de áreas ligadas ao esporte, e quase sempre essa segunda carreira foi semeada ainda durante a primeira.

E a experiência para adentrar no mercado de trabalho?
Aqui, não limito a dupla carreira apenas aos estudos: considero igualmente importante adquirir vivência profissional nos anos que antecedem a aposentadoria esportiva, especialmente quando ela acontece de forma planejada.
Trago um exemplo pessoal. Comecei a cursar Engenharia Civil em 2013, mas, por conta das constantes viagens e da rotina exaustiva de treinos, avancei lentamente na faculdade, chegando a trancar a matrícula por alguns semestres. Ao final do 7º semestre, em 2020, decidi mudar de área e migrei para a programação, com aprofundamento em marketing e desenvolvimento de marca.
Explico esse movimento: sempre me preocupei com o fim da carreira esportiva e com os desafios que enfrentaria depois dela. Por mais que eu me identificasse com a engenharia civil, a área não me permitia ganhar experiência de campo enquanto atleta. Era como se eu tivesse que começar do zero ao me retirar do esporte, aos 30 e poucos anos. Foi então que fundei a agência Barko, em 2021.
Trabalhando com horários próprios e desenvolvendo novas habilidades ao atender demandas de diversos tipos, descobri, bem antes da parada, quais caminhos eu gostaria de seguir. E cheguei a essa conclusão com experiência e mais confiança.
3. O sistema de clubes e os contratos curtos
Aqui chegamos a um ponto que afeta diretamente quem vive da natação no Brasil, e que poucos atletas entendem com clareza no início da carreira esportiva.
Diferente do futebol, a natação raramente é praticada sob regime profissional formal. A Lei Pelé (Lei nº 9.615/1998) tornou o contrato especial de trabalho desportivo obrigatório apenas para o futebol (art. 94), permitindo que as demais modalidades, incluindo a natação de alto rendimento, sejam praticadas de forma não profissional, por meio de bolsas, patrocínios e contratos civis, sem as proteções da CLT. A Lei Geral do Esporte (Lei nº 14.597/2023) começou a alterar esse cenário ao ampliar o conceito de atleta profissional e estender garantias contratuais a todas as modalidades, mas, na prática, o modelo não empregatício ainda predomina fora do futebol.
Por que isso importa para a transição de carreira? Por algumas razões práticas:
- Sem vínculo CLT, não há as mesmas garantias (FGTS, aviso prévio, estabilidade) que cercam outras profissões. O atleta fica mais exposto.
- Os contratos são curtos e atrelados a ciclos, resultados e à captação de recursos. Uma temporada ruim, uma lesão ou a perda de um patrocínio podem encerrar um vínculo rapidamente.
- A cultura de clubes brasileira ainda prioriza, em muitos casos, a pontuação em campeonatos nacionais em vez do desenvolvimento de longo prazo do atleta e de resultados internacionais. Isso cria uma estrutura em que o nadador é peça de um sistema que nem sempre pensa no dia seguinte da sua carreira.
O que fazer diante disso:
- Leia e entenda cada contrato antes de assinar. Saiba exatamente o que você está recebendo, sob qual natureza jurídica, e o que acontece em caso de lesão ou rescisão.
- Não dependa de uma única fonte. Salário de clube, patrocínio, Bolsa Atleta, premiações e renda paralela compõem um conjunto mais seguro do que um único contrato.
- Busque assessoria especializada. No meu caso, contar com uma assessoria como a RSP Sports faz diferença na hora de entender as cláusulas e negociar em condições justas. Ter quem traduza esse universo muda o jogo.
- Pense no vínculo como temporário por natureza. Se o sistema oferece contratos curtos, planeje a vida financeira e profissional contando com essa rotatividade, e não contra ela.
Entender as regras do jogo fora da piscina facilita, e muito, o processo de retirada do esporte.
4. Organização financeira
No Brasil, o cenário tem um agravante. A realidade da maioria dos atletas, e isso vale muito para a natação, envolve rendimentos que não chegam nem perto dos salários da elite do futebol, somados a contratos de curta duração.
Por isso, o planejamento financeiro do atleta precisa começar cedo. Os obstáculos são conhecidos: é difícil convencer um jovem de 19 anos, lidando com pressões de consumo e a vontade de ajudar a família, a pensar em aposentadoria. Mas é justamente essa antecipação que separa quem chega ao fim da carreira com tranquilidade de quem chega no vermelho.
Princípios que considero importantes:
- Viva abaixo do que você ganha. O conselho mais repetido por ex-atletas que se tornaram planejadores financeiros é simples: mantenha um padrão de vida um pouco inferior ao que sua renda permite. Essa folga vira poupança e proteção para os imprevistos.
- Monte um time para lhe ajudar. Consultor financeiro, contador e, dependendo do patrimônio, apoio jurídico e de planejamento. Não precisa ser caro para começar; precisa ser confiável.
Vale registrar um avanço institucional: tramitam no Congresso projetos de lei que preveem a oferta de educação financeira na formação de atletas, alterando a Lei Geral do Esporte, como o PL 3.151/2025, já aprovado na Comissão do Esporte da Câmara. É um reconhecimento, ainda que tardio, de que a maioria começa a carreira sem nenhum preparo para lidar com dinheiro. Enquanto a lei não chega, a responsabilidade segue sendo nossa.
Juntando as peças
Se há uma dica que quero deixar, é esta: a transição de carreira de atleta não acontece da noite para o dia, e não deveria começar no dia em que você para de competir. Ela começa anos antes, no auge, quando ainda parece que falta muito tempo.
Os quatro pilares conversam entre si. Cuidar da cabeça (psicológico) te dá clareza para tomar boas decisões. Organizar as finanças te dá tranquilidade para escolher sem desespero. Entender o sistema de clubes e contratos te protege das armadilhas estruturais da modalidade. E os estudos e a experiência prévia te dão as alternativas concretas para o depois.
Eu não tenho todas as respostas, estou no meio do processo. Mas tenho convicção de que falar abertamente sobre isso já é metade do caminho. O silêncio sobre a transição pega desprevenidos os atletas que se veem sozinhos quando o corpo pede descanso e o investimento vai embora.
Se você é atleta, comece o quanto antes. Se você é dirigente, treinador ou gestor, ajude a construir um ambiente em que pensar no pós-carreira seja parte do trabalho. A natação brasileira, e o esporte brasileiro como um todo, só tem a ganhar com atletas que se aposentam inteiros, e não em pedaços.
Este texto reflete minha experiência pessoal como atleta em processo de transição, somada a dados e pesquisas sobre o tema. Não substitui orientação profissional individualizada, psicológica, financeira ou jurídica. Se você está passando por esse momento, busque apoio especializado.
Referências e fontes consultadas
- Revista Inteirada Esportes: “O ‘Second Career’: O Desafio Psicológico e Financeiro da Aposentadoria Precoce no Esporte de Alto Rendimento” (2026), com dados do COI e de associações internacionais de atletas.
- Jornalismo Júnior (USP): “Transição de carreiras: o recomeço dos atletas após aposentadoria” (2025).
- Câmara dos Deputados: “Alto rendimento: pressão por resultados e transição de carreira são fatores de estresse e adoecimento de atletas”. Disponível em: camara.leg.br
- Revista Brasileira de Ciências do Esporte: “Facilitadores e barreiras para a dupla carreira do estudante-atleta de elite: uma revisão integrativa”.
- Associação Brasileira sobre Dupla Carreira Esportiva (ABDC) e Grupo de Pesquisa sobre Dupla Carreira Esportiva (FEF/UnB).
- Lei nº 9.615/1998 (Lei Pelé) e Lei nº 14.597/2023 (Lei Geral do Esporte).
- Exame: “Planejamento e gestão financeira para atletas profissionais” (2024), com dados do National Bureau of Economic Research.
- O Tempo / Surto Olímpico: reportagens sobre o projeto de lei de educação financeira para atletas e a alteração da Lei Geral do Esporte (2025).
- “Comissão aprova educação financeira para atletas”: Agência Câmara de Notícias, outubro de 2025.

Nadador olímpico, programador e especialista em SEO, sócio fundador da agência Barko e sócio da LD Sports assessoria aquática


